Em Paris, estudantes da Universidade Sorbonne Nouvelle fazem fila para revista na porta da faculdade. Foto: Giovanna Saba

Em uma sexta-feira, 13 de novembro, Dylan de 14 anos assistia televisão com a sua irmã. Enquanto isso algumas pessoas no café Le Carillon, na parede vizinha, comemoravam a chegada do final de semana para conversar e reencontrar os amigos.

Foi então que os dois irmãos escutaram tiros na rua. Um impulso inocente os levou a abrir a janela e presenciar uma entre tantas outras das cenas de horror daquela noite.

A irmã, cansada e assustada após testemunhar a carnificina da noite anterior se recusa a dar entrevista. Entretanto, Dylan relata o que viu em primeira mão. “Fechamos a janela e esperamos dois minutos para sair e ajudar as pessoas acolhendo-as na nossa casa”, contou.

Sua mãe, Lourdes, se dispõe a narrar os relatos da sua filha. “Assim que eles abriram a janela se depararam com 14 pessoas estendidas no chão e outros fazendo massagens cardíacas nos corpos desanimados de seus próximos. Alguns não sabiam como reagir, estavam em estado de choque”, afirmou.

Eu agradeci a entrevista desta família tão atenciosa e prossegui com a cobertura dos atentados. Tirei fotos dos locais atacados, entrevistei habitantes da capital e fiz idas e voltas na praça da República.

Ao longo do trabalho, percebi que muitos daqueles jornalistas que estavam ao meu redor vinham de todas as partes do mundo. Enquanto eles sabiam que logo deixariam a capital ameaçada eu me dei conta de que seria obrigada a pegar o metrô bem ali e voltar a vida normal depois daquele final de semana sangrento. Percebi que eu permaneço em Paris, afinal esta é a minha cidade.

Então me dei conta da coalizão dos acontecimentos com a minha vida diária. Eu estive lá pessoalmente conversando com testemunhas e fotografando cada canto atingido pela violência do Estado Islâmico.

Hoje, assim como todos os habitantes da capital francesa, o terrorismo faz parte do meu dia-a-dia. Ele está presente nas revistas reforçadas na porta da minha faculdade, nos olhares atentos nos vagões de metrô lotados e nos espaços públicos desertos.

Acredito que depois da noite do dia 13 de novembro o meu blog se divide em duas partes: o antes e o depois. O antes de uma Paris cheia e animada e o depois de uma Paris amedrontada, porém destemida e disposta a se reerguer. Pouco a pouco encontraremos nossos caminhos para uma vida sem medo, uma vida sem terror, uma vida à la parisiense.