“O primeiro homem, decerto, ao perder o pelo, descobriu a tatuagem”, afirma João do Rio, em “

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”. E não é de se duvidar dessa afirmativa, afinal, entre todos os animais o ser humano talvez seja o mais feio e desprotegido.  Por isso lançou mão de artifícios da natureza para tentar parecer aquilo que não era, ou seja, mais belo e mais forte.

Apesar da sociedade atual ser mais tolerante com as tatuagens, isso não é uma invenção dos tempos modernos. Há registros de que o “O Homem do Gelo”, que viveu há 5200 anos, encontrado na região dos Alpes, entre a Itália e a Áustria, já tinha o hábito da tatuagem: ele tem cinquenta marcas na pele, todas nas costas e atrás dos joelhos.

Depois de colorir a pele com pó de madrepérola e urucum, as primeiras marcações definitivas foram feitas com espinha de peixe pontuda que inseria a tinta por debaixo da pele. Como afirma Leusa Araujo, em “Tatuagem, piercings e outras mensagens do corpo” (Editora COSAC NAIFY), esse homem precursor “sentiu uma dor profunda. O efeito, porém, haveria de durar para sempre. Teve de cuidar da ferida por alguns dias, com unguento. E depois comemorou, orgulhoso: nem a água nem o sal poderiam mais arrancar o desenho de sua pele”.

Mas os tempos são outros e o que motiva uma tatuagem mudou muito. Como eu já citei em outro post aqui do blog, a psicoterapeuta, professora e pesquisadora Dra. Cristiane Mesquita, afirma que a mudança na aparência gera aparência de mudança, já que a subjetividade contemporânea é composta por fluxos tão intensos que a capacidade de mudar a si próprio pela inserção de piercings, tatuagens, acessórios, trocas constantes de roupas e cortes de cabelos é tida como um estado ideal.

Enquanto o homem primitivo era obrigado a conviver com suas marcas, o homem moderno tem recursos tecnológicos a sua disposição para removê-las. E na medida em que cresce a procura por tatuagens, cresce também a busca pela remoção dos desenhos, seja por arrependimento ou por insatisfação.  Segundo um estudo realizado pela IBISWorld, a procura pelo procedimento aumentou 440% nos Estados Unidos nos últimos dez anos.

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Remoção de tatuagem a laser realizada pela Dra. Alice S. Pien, diretora médica da AMA Skincare. Foto James Mutter

Hoje a tecnologia avançou e há modernos aparelhos de laser capazes de contornar o problema de maneira mais efetiva e menos traumática. Conversei com a Dra. Adriana Benito, médica-chefe da Pró-Corpo Estética Avançada, para esclarecer algumas dúvidas sobre o procedimento.

À MODA DELES: É possível remover completamente a tatuagem com laser?

ADRIANA BENITO: O laser “quebra” a tinta em micropartículas, que, depois, são naturalmente eliminadas pelo corpo. Ao longo das sessões, os traços vão ficando mais finos e claros, até a completa extinção da tatuagem. Aspectos como cor e localização do desenho, tom da pele e cicatrização de cada um devem ser considerados para determinar a quantidade de sessões.

AMB. Tatuagens pequenas podem ser removidas com apenas uma sessão?

AB. O número de sessões depende da qualidade e coloração da tinta usada como também da profundidade do pigmento na pele. O número de sessões pode variar entre 4 a 12 sessões com intervalo mínimo de 60 dias.

AMD. Retirar a tatuagem pouco tempo depois de ser feita prejudica a pele?

AB. Pelo contrário, isso pode ser uma vantagem, já que a tinta ainda não está bem penetrada na pele. O procedimento só poderá ser iniciado após cicatrização total da pele, num prazo médio de 45 dias após realização do desenho.

AMB. Tatuagens coloridas são mais difíceis de serem removidas?

AB. Sim, como o laser tem mais afinidade com cores escuras, as tatuagens coloridas são mais difíceis de sair, especialmente se o preenchimento foi realizado com cores como o amarelo e o azul. O tipo de pigmento utilizado também é um fator determinante, pois cada um reage de forma diferente ao laser. No decorrer das sessões, é possível analisar como será a evolução do tratamento.

AMB. É possível fazer uma tatuagem no mesmo local do corpo que passou por um processo de remoção?

AB. Muitos tatuadores, inclusive, aconselham seus clientes a passarem por algumas sessões de remoção para clarear o desenho. É preciso apenas que a pele se recupere completamente da sessão de laser antes de submetê-la a uma sessão de tatuagem.

AMD. Existe diferença entre a pele masculina e feminina para remoção das tatuagens?

AB. Na pele em si não há diferença, mas, na prática, as mulheres geralmente possuem tatuagens menores e mais delicadas, o que torna o processo mais fácil.

AMD. O processo de remoção é mais doloroso do que a feitura da tatuagem?

AB. A percepção da dor é bem subjetiva. Boa parte dos clientes relata dor de mesma intensidade e outros relatam dor mais intensa. Mas todos afirmam que o processo é bem suportável, já que os tiros do laser são rápidos, assim como a duração das sessões.

AMB. Existe limite para remoção de tatuagens numa mesma parte do corpo?

AB. Não há um limite. Na verdade, isso depende da capacidade de cicatrização e regeneração da pele de cada um. É preciso respeitar o intervalo médio entre as sessões de tatuagem e remoção para que a pele já tenha se recuperado e que não haja nenhum resquício de processo inflamatório. Por isso, a avaliação do especialista é fundamental, no sentido de checar a condição da pele.

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Resultado da remoção de tatuagem. Foto South Coast MedSpa